O luto das vítimas é luta

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A argentina Lucía Perez, 16 anos, foi vítima de um feminicídio brutal. De acordo com o inquérito feito, a jovem morreu devido a dor excessiva de ser empalada! (*Empalar)

Este caso lembrou-me uma Maria da ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, que por um fio conseguiu escapar com vida, vítima de golpes de catana do marido.

De norte a sul, elas são “amputadas” no corpo e na alma.

Quando eu penso nessas e outras vítimas o meu estômago dá voltas…

O machismo mata, mata de verdade! A violência contra a mulher, principalmente a doméstica, tem uma dificuldade de enfrentamento. Não existe formula mágica, é verdade, mas precisamos educar a sociedade a não aceitar nenhum tipo de violência. Precisamos investir, com todas as forças, na educação sobre o que é o machismo, racismo, homofobia e outros crimes de ódio. Precisamos abraçar projectos que beneficiam as pessoas, no geral. Precisamos educar a comunicação social para que a violência contra a mulher não vire espectáculo. Precisamos debruçar nas leis e nas políticas públicas. Precisamos denunciar o agressor.

O luto das vítimas é luta. Precisa ser a nossa luta.

A ausência de certas perguntas

picmonkey-collageA resposta mais completa é aquela que não está na pergunta. Ela está nos exemplos que não conseguimos exprimir. Nas coisas que não são palpáveis e nem chegam a ser ditas. Pessoalmente, tenho várias respostas para perguntas que nunca me fizeram.

Perdão, caro leitor, estou (um pouco mais) subjectiva, porque essa é a questão. A subjectividade de cada um de nós.

Uma semana atrás, andei por quase as todas lojas da cidade da Praia à procura de um biquíni que fosse adequado (atenção: não quis dizer “comportado”) para o lugar onde eu ia. Encontrei a tal peça, indispensável para o verão, e por alguns momentos pensei na “polémica do burkini”.

Como funciona o  “cobrir” e ” descobrir” o corpo? Quem usa burkini foi obrigada? Quem usa biquíni foi obrigada? O que é considerado extremo e normal? Onde ficou a subjectividade de escolha? Ela, ao menos, existe? Ou, é um mito?

Na Pretória, capital executiva na África do Sul, uma escola orientou as suas alunas, em respeito ao código de conduta da instituição, a usarem os cabelos penteados e “bem presos”. Uma exigência que não deixa de ser, também, subjectiva…

Os burkinis, biquínis e afros continuam a gerar polémicas. A carga do pensamento atrasado e sexualizado pesa. E a ausência de certas perguntas GRITA e não ouvimos!

Feminismo está na moda? Talvez. Devemos dar importância a isso? Sim!

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É urgente regar o solo do bom relacionamento de mulheres com mulheres, base fundamental do feminismo. Porém, será que preciso fazer parte de um padrão para ser feminista? Será que não estamos a reproduzir discursos opressivos?

Por exemplo, já ouvi muito de “mulheres feministas” que mulher que usa muita maquiagem e coleciona sapatos ou gasta metade do seu salário em roupas é fútil; mulher de cabelo encaracolado que faz alisamento nega a sua “beleza natural”; mulher que ama o seu corpo não faz procedimento cirúrgico.

Porquê que a mulher discreta, que não ostenta, que assume a sua “beleza natural” e aceita o seu corpo, mesmo com vontade de mudar algo nele, tem mais valor que a outra?

Quanta ironia: lutar contra regras do patriarcado para criar novas regras afetando o crescimento de outras mulheres como seres individuais.

Não precisamos ser Michelle Obama, Malala Yousafzai ou Emma Watson para sermos respeitadas.

Precisamos, sim, respeitar a liberdade de ser de todas nós. Mulheres.

Mulheres empoderadas, Mulheres conscientes

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Vivian e Claudia são mulheres que estudaram e foram criadas para serem bem-sucedidas. Mas, seguiram caminhos diferentes.

Claudia é uma dona de casa nada desesperada: adora cozinhar para o marido e não há nada que lhe faça mais feliz do que cuidar dos filhos. Vivian é advogada,solteira, gosta de sexo casual e decidiu que filhos só quer lá na frente!

“Claudia, vai jogar sua carreira fora?”.

“Vivian, quando vai se casar?”.

Escolhas.  A vida é feita de escolhas. A libertação feminina saiu do universo das teses para instalar-se no agora. Claudia e Vivian seguiram direções que a qualquer momento podem mudar, ainda bem. A empresária, hoje, pode ser a dona de casa amanhã. Possibilidades. Elas estão todas ali.

Porém, não se deixe enganar. Essas duas mulheres não representam a maioria. Na verdade, elas representam a  imagem de que o acesso ao capital, diploma ou casamento  significa uma mulher de sucesso. Uma mulher de mérito.

Mas, será que estudar na melhor universidade, ter vários dígitos na conta bancária e aliança no dedo torna a mulher empoderada?

Ou, a torna, simplesmente, privilegiada?

Sim, porque do que adianta uma mulher alcançar um alto cargo de serviço, por exemplo, e não ser consciente da desigualdade social que afeta outras mulheres.

E aproveito para dizer o seguinte: muitas de nós contribuímos para o prolongamento dessa disparidade social!

Mulheres no poder ou com poder são muitas. Empoderadas, apenas algumas.

As mulheres só serão empoderadas quando abraçarem o conceito real do feminismo.

Um conceito político que zela pela igualdade de oportunidades e direitos, independentemente, da classe social, raça, gênero, identidade, sexualidade ou nacionalidade.

E claro, sem exclusão!

Mulheres empoderadas, sim. Mas, sem “apagar” ou “ofuscar” ninguém.

A ideia é ver a diversidade de mãos dadas. Só assim, uma sociedade global sustentável.

O “eu” que eu podia ser

 

Collage

Existe um eu dentro de mim que eu podia ser. E, por algum motivo, não sou. Sufoco-a. Não a deixo respirar!

Existe um eu dentro de mim que ninguém consegue ver. Ela veste um vestido azul e vive outra vida… Às vezes, eu e ela nos encontramos. Conversamos pouco.

Passei a pensar mais nos “eus” depois que li declarações de duas mulheres.

A primeira é  vítima de mutilação genital na Guiné- Bissau.

“Pergunto: até que ponto eu devo preservar práticas que fazem parte da minha cultura. Porque algumas delas ferem o meu corpo. A minha alma”.

A outra pertence a uma tribo na região de Omo, na Etiópia.

“Durante o ritual ‘bullah’ recebo chicotadas. Cara pintada, cicatrizes pelo corpo. É assim, com orgulho, que nós mulheres representamos a nossa tribo”.  

Existe um “eu” dentro de cada uma dessas mulheres, e muitas outras, que podia ser, mas não é.

Não respira. É asfixiada!

Por algum motivo.

 

O mundo não é o que existe

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Anele, Adanna e Ayo são meninas e mulheres do passado. São meninas e mulheres do presente. Elas esperam pelo resgate.Elas fazem parte desse mundo. Mas, elas não são o mundo em si.

Pois, mundo não é o que existe, mas o que acontece. E a elas muita coisa aconteceu…

Anele, Adanna e Ayo são todas as que nunca mais ouvimos falar! São as que foram e nunca mais voltaram. Deixaram de ser o que podiam ser. Alguém interrompeu o caminho delas.

Violentadas, atacadas com ácido, desfiguradas, privadas à educação, mutiladas.

De acordo com a ONU, estima-se que uma em cada cinco mulheres serão vítimas de estupro ou de uma tentativa de estupro ao longo da vida. Uma em cada cinco meninas está fora da escola. Segundo os dados da UNICEF, existem 130 milhões de mulheres e meninas vítimas de mutilação genital.

“O mundo não é o que existe, mas o que acontece”, li ou ouvi  por aí. Não me lembro.

Não é defeito, é efeito

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“Para ser bela terás que ter um rosto simétrico e um corpo delgado”, um dia, alguém disse.

Contudo, apareceu Ana, Creusa, Maria… E, muitas, muitas outras. Mulheres bonitas, belas, lindas, lindíssimas com uma orelha mais exibida que a outra, um nariz achatado, um espaço entre os dentes, um corpo roliço… Mulheres que foram desenhadas com um lápis de ponta mais grossa. Mulheres que foram coloridas com cores fortes, cores suaves, cores marcantes.

Musas dos traços indefinidos. Desiguais. Ah, os traços! Que maravilha que elas são. Que lembrete que elas são (quando as aceitamos) de que não é defeito, é efeito.

Mulheres empoderadas, Mulheres conscientes

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Vivian e Claudia são mulheres que estudaram e foram criadas para serem bem-sucedidas. Mas, seguiram caminhos diferentes.

Claudia é uma dona de casa nada desesperada: adora cozinhar para o marido e não há nada que lhe faça mais feliz do que cuidar dos filhos. Vivian é advogada,solteira, gosta de sexo casual e decidiu que filhos só quer lá na frente!

“Claudia, vai jogar sua carreira fora?”.

“Vivian, quando vai se casar?”.

Escolhas.  A vida é feita de escolhas. A libertação feminina saiu do universo das teses para instalar-se no agora. Claudia e Vivian seguiram direções que a qualquer momento podem mudar, ainda bem. A empresária, hoje, pode ser a dona de casa amanhã. Possibilidades. Elas estão todas ali.

Porém, não se deixe enganar. Essas duas mulheres não representam a maioria. Na verdade, elas representam a  imagem de que o acesso ao capital, diploma ou casamento  significa uma mulher de sucesso. Uma mulher de mérito.

Mas, será que estudar na melhor universidade, ter vários dígitos na conta bancária e aliança no dedo torna a mulher empoderada?

Ou, a torna, simplesmente, privilegiada?

Sim, porque do que adianta uma mulher alcançar um alto cargo de serviço, por exemplo, e não ser consciente da desigualdade social que afeta outras mulheres.

E aproveito para dizer o seguinte: muitas de nós contribuímos para o prolongamento dessa disparidade social!

Mulheres no poder ou com poder são muitas. Empoderadas, apenas algumas.

As mulheres só serão empoderadas quando abraçarem o conceito real do feminismo.

Um conceito político que zela pela igualdade de oportunidades e direitos, independentemente, da classe social, raça, gênero, identidade, sexualidade ou nacionalidade.

E claro, sem exclusão!

Mulheres empoderadas, sim. Mas, sem “apagar” ou “ofuscar” ninguém.

A ideia é ver a diversidade de mãos dadas. Só assim, uma sociedade global sustentável.