Campanha “O que eu quero para toda criança”

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Fotografia: Décio Barros

Enquadrado na campanha da UNICEF “Tiny Stories”, que convida pessoas do mundo inteiro a escreverem uma pequena história a partir do tema “o que eu quero para toda criança”, partilho o meu o texto abaixo:

Era um dia especial: em todo o mundo os professores lançaram o desafio aos seus alunos de responderem o que eles queriam ser quando fossem crescidos.

“Não tenham pressa. Vão para casa e pensem com calma”.

As crianças foram para casa. Pensaram.

No dia seguinte, ocuparam os seus lugares na sala de aula muito entusiasmadas, muito contentes. A resposta estava na ponta da língua, naturalmente.

“Quero ser médico, Professora!”, disse um menino na China.

“Professora, eu no futuro quero ser médica e das boas”, disse uma menina em Cabo Verde.

“Professor, nem foi preciso pensar muito, sabias? Sempre soube que eu queria ser médico!”, disse um menino no Brasil.

Estavam em sintonia.

Foi assim que todas as crianças do mundo responderam. Foi assim em todos os cantos do mundo.

Os professores, muito surpreendidos, muito intrigados, queriam saber o porquê.

“Porque o mundo está doente, doente. E queremos curá-lo o quanto antes”.

O Histórias que eu não contei também quer isso: que todas crianças tenham a oportunidade de “curar” o mundo. 

#tinystories #unicef #foreverychild

Somos todos “especiais”

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Conheci a Sara no ano passado quando fizeram-lhe a transferência para nossa escola. Desde então, a nossa turma tornou-se famosa. Uma menina, numa cadeira de rodas, com paralisia cerebral fazia parte da nossa sala de aula.

Ela está integrada na turma junto com os outros meninos. Apesar dos obstáculos, vamos ter óptimos resultados”, disse a professora Helena.

Eu nunca vi a Sara no pátio na hora do recreio. Nem a brincar o “telefone estragado” ou a cantar cantigas que professora Helena nos ensinou.

Na verdade, ela nunca está incluída nas nossas actividades. Apenas, integrada no nosso mundo. 

Sara fica no canto direito da sala, lá no fundo, com os olhos cravados na janela. Atrás dela tem uma estante com livros e brinquedos “especiais” para ela. A menina “especial”.

No outro dia, pedi a Professora Helena para pegar em um dos brinquedos da estante “especial” e ela disse-me que não.

A aura de “este lugar é reservado para ela” no canto direito da sala intimida-me um pouco. Afasta os meninos “não especiais” que querem brincar com ela.

Será que a Sara saberia como brincar com os nossos brinquedos “não especiais”?

Enfim, tirei nota baixa, mais uma vez, na prova de matemática. Vou ficar de castigo. Uma pena, queria muito convidar a Sara para vir cá em casa.

Sinto que temos algo em comum. Sou tão especial quanto ela é.