Mobilidade urbana, cidade mais humana

Por falta de tempo, eu ainda não fiz a minha carta de condução. E, sim, é elevada a minha consideração para com aqueles que andam a pé, atravessam a estrada ou pedalam a sua bicicleta.

Vivemos numa cidade construída para carros. E uma cidade construída para carros segue a lógica da exclusão. Nem todos conseguem comprar um carro, quanto a mais mantê-lo. Uma cidade construída para carros perpetua o individualismo: autocarros, pessoas que utilizam os transportes públicos, piões e ciclistas são obstáculos ao movimento tranquilo de quem está no seu automóvel.

A cidade onde eu vivo é planeada, sobretudo, para o indivíduo que trabalha. Aquele que faz um deslocamento considerável entre a sua casa e o trabalho. Por muito tempo, o homem, o chefe de família, era quem fazia essa trajectória, enquanto mulher ficava em casa a cuidar dos filhos ou saía de casa para para percorrer um caminho curto. As coisas mudaram. A mulher passou trabalhar, a dirigir o seu próprio carro e a realizar várias jornadas na estrada e na vida.

Porém, como mulher sinto que é preciso desatar o nó da mobilidade na minha cidade. Com este calor, à noite, penso muitas vezes em fazer uma caminhada por aí e respirar o ar (não tão) puro. Depois, lembro-me o quão assustador é andar sozinha, porque ser mulher tornou-se, em diversas situações, conseguir escapar com vida.

Há uma perda de presença humana nas ruas à noite.

Ora, eu não tenho carta de condução, mas faço parte da mobilidade urbana da minha cidade! Aliás, fazemos todos, com ou sem carro. E por isso, quero que a minha prioridade seja respeitada e reivindico que é preciso olhar a segurança com mais responsabilidade.

Uma cidade mais humana, é o que todos nós queremos.

 

A flor de trapo

f1ad624a53e0d88364cfb345c13cfa7d-2

Uma flor de trapo feita com retalhos de histórias esquecidas, inacabadas,jogadas a própria sorte sem que ninguém pudesse ter a chance de os ler. Galiléia coseu a flor de trapo para o filho Quimquim de uma vez só. Na noite em que o marido foi morto. Uma linha fina, prendida na agulha, atravessava a miséria do retalho que dava forma a uma flor sem caule.

Na manhã seguinte, Galiléia ofereceu a flor ao filho.

“Regue-a”, pediu.

Quimquim colocou a flor num vaso de vidro onde era possível ver lá dentro, junto com terra, uma vida que ele sonhou ver sem nunca ter chegado a viver, um pássaro mensageiro da paz e a boa nova a ser clamada por crianças pobres, mas felizes.

Quimquim regou a flor por sete noites assombrado pelo terror de ela secar. O menino meigo não sabia o que ele estava fazendo e, por isso, ele regaria a flor mais ainda.

 “Flores de trapo não precisam ser regadas. Elas não secam”.

Quimquim não sabia o que era possível ou impossível, verdade ou mentira. E segundo a mãe ele não deveria saber. Galiléia sabia que o filho iria além porque ele não conhecia as regras, ainda.

A possibilidade “das coisas” daquela flor de trapo era possível sempre que ela fosse regada.

Desaprendendo o amor

A vida amorosa não é um filme, infelizmente. Quer dizer, o amor eterno que o casal morre de mãos dadas como no clássico “Diário de uma paixão”, ou aquele que o rapaz chega ofegante para alcançar a amada, que está de malas prontas na linha de embarque no aeroporto, existe, mas são momentos. E momentos são instantes. Tem hora de acabar.

Pensando bem, os filmes românticos são óptimos porque lembram-nos que essas situações existem…e clichê, sim, mas todos nós perseguimos o amor. Apesar, da invisibilidade desse sentimento, estamos sempre a farejá-lo.

Enquanto isso, vááários discursos são construídos. O que é amar, gostar, apaixonar, desejar, “10 passos sobre como superar o fim do relacionamento”,já agora, a última que eu li: “anel hi-tech permite sentir a batida do coração do seu amor”, e por aí vai. No plano teórico é fácil acreditar nessas narrativas, enquanto que na prática é difícil de seguir, às vezes.

Em conversa com algumas mulheres foram partilhados pensamentos sobre o que seria o amor e um relacionamento saudável. Confira!

1-amor

untitled

untitled-5

Declarações que direcionam para o seguinte: relacionamento saúdavel é o que se constroi, é o todo dia, a conversa, o respeito pela opinião e individualidade do outro, alinhar os objetivos e as expectativas.

Somos humanos e nos relacionamos em diferentes cenas, e nos divertimos e aprendemos com elas. Quem somos nós para privar os outros de fazerem ou serem o que eles têm vontade, principalmente se os amamos?

 

Minimalismo: O meu armário cápsula

1ad3210846cea6e0fc1481456e1e95c3

Sempre que eu encontrar algo inspirador ou que eu gostaria de aplicar na minha vida, partilharei por aqui. No blog, na categoria “Inspirações”,há espaço para isso…

Semana passada comecei a ler mais sobre o conceito minimalista. Eu já conhecia a palavra como corrente artística na utilização de elementos mínimos e básicos, principalmente na decoração de interiores e no mundo fashion.

Não sabia, porém, que o minimalismo vai além. Ser minimalista, por exemplo, não significa viver numa casa pequena, sem televisão com cores preto e branco à volta. E sim, uma forma de se livrar dos excessos em prol de uma vida mais saudável e sustentável.

O que é desnecessário na vida de cada um é relativo. Cada um sabe o que torna a sua vida plena. Portanto, não existe regra.

Mas, segue abaixo um passo simples que pretendo dar, ainda esta semana, e que pode servir de ponto de partida para si, também!

Meu armário cápsula

Desapegar de peças que não fazem qualquer diferença no meu armário é algo que eu pretendo reflectir. Mesmo tendo o guarda roupa cheio, muitas vezes, vejo-me sem opção e a repetir a tal frase: “Não tenho o que vestir”. Há quem use a desculpa de manter certas roupas porque gosta do tecido, ou porque lhe lembra um evento especial…Mas, amar uma roupa e não usá-la? Não faz muito sentido. Por isso, criar “meu armário cápsula”, ou meu armário somente com peças que, realmente, preciso, pode ser um passo significativo para embarcação da minha experiência minimalista.

Parece fácil, mas não é! Exige muita força de vontade…

Deixem aqui a suas ideias sobre o assunto e se já tentaram ser minimalista alguma vez!

Beleza nas imperfeições

20160911_081842
Ilustração: Denise Lobo

Aos 12 anos ela nutria a tristeza de ter um cabelo longo que encolhia a metade do seu comprimento. No segundo ano do liceu, Kesia Lima adotou a moda do “relaxante” para “abrir os cachos” e “pentear-se melhor”. Assim, começou a degradação dos fios, até perder os caracóis.

Enquanto os anos se passavam, Kesia olhava para uma fotografia dela, ainda pequena. “Afinal, o meu cabelo natural não é tão mal assim”, pensava.

Um mês antes de fazer os seus 18 anos, Kesia acompanhou a mãe ao cabeleireiro e resolveu cortar o cabelo curtinho! O peso do cabelo liso foi-se embora. “Um descanso sem igual”, afirma.

A fase de transição é marcante, mas Kesia diz que sua foi pacífica. E, atrevo-me a dizer que ela deu-se conta que durante esse período de crescimento fez várias representações dela mesma. Mimar o cabelo natural passou a ser um ritual. A tesoura? Não chegou nem perto.

Por trás dos fios de cada mulher reside um universo de significados que comunicam ao mundo de quem ela é. Depois de seis anos, Kesia aprecia o que antes lhe incomodava.

“Consigo ver a beleza nas imperfeições, quanto mais bagunçado melhor.”

 

 

 

Meu cabelo é a minha identificação

20160911_081909
Ilustração: Denise Lobo

Suzana Hopffer Andrade começou a usar produtos químicos no cabelo para “domá-lo” e conseguir caracóis definidos, com o cuidado de não esticar ou alisar muito os fios. A mãe, por outro lado, apreciava o efeito liso e preto brilhante do cabelo da filha quando usava o defrisante. “Um dia algo correu mal. Meu cabelo ficou liso e começou a cair… Cortei o cabelo curtíssimo. Foi super estranho “.

Em 2011, Suzanna deixou o cabelo crescer naturalmente, através de cuidados específicos para o cabelo crespo.

“Comecei a pesquisar blogs, videos no youtube e páginas no facebook. Devorei todas as informações e os produtos nas lojas, também. Estava maravilhada com a quantidade de opções sobre como deixar o meu cabelo natural mais bonito. Penteados que eu nunca pensei com o cabelo afro para qualquer ocasião: casamento, festas, trabalho…sem a afronta de ter que alisar o cabelo. Comecei a amar o meu cabelo, amar de verdade”.

Contudo, Suzanna diz que nem tudo são rosas porque muitas pessoas que assumem o seu cabelo natural são penalizadas de alguma forma. Ela argumenta que quando falamos do cabelo crespo a textura dos fios é que conta. Ou seja, o cabelo crespo com o efeito encaracolado está sujeito a mais elogios que o cabelo que não tem um formato algum.

“Eu trabalho numa farmácia e os utentes e turistas elogiam o meu cabelo, constantemente, antes mesmo de pedirem algum remédio ou aconselhamento. As vezes, perguntam-me na rua o que eu uso no cabelo, se é peruca ou não, para não alisar, que é lindo, e por aí vai…Na rua, as mulheres questionam-me qual é o tratamento que eu utilizo para encaracolar o cabelo. Até em viagens isso aconteceu-me. Fui a Turquia e em qualquer lugar que eu passava pediam para tirar uma fotografia comigo ou colocar as mãos no meu cabelo, com aquela cara de espanto”.

Suzanna acrescenta que junto com os elogios ela também já ouviu que o seu cabelo é bonito porque não tem o aspecto “palha”, seco, duro, como alguns cabelos crespos. A jovem afirma que quer ser elogiada porque o seu cabelo é bonito, apenas, e não em comparação com os outros.  

Muitas vezes, Suzanna ouviu também que o seu cabelo não deve ultrapassar o comprimento actual. Consequentemente, isso despertou nela a obrigação de defender-se e responder sempre que alguém faz algum comentário negativo, pois tem a consciência que a estética negra sempre esteve, e está, sob algum ‘ataque’.

“Para mim é quase uma questão de direitos básicos enquanto um ser humano, e uma porta para luta contra os preconceitos. Eu sinto que há quem olhe primeiro para o meu cabelo antes de mais nada quando estou no local de trabalho, como se isso determinasse a minhas capacidades ou habilidades. Meu cabelo é a minha identificação, mas sobretudo um meio de quebrar barreiras, preconceitos e opiniões. É a minha mini revolução. Faço isso para abrir o caminho para os outros, sem que eles sofram ou percam oportunidades por causa da forma como eles usam o cabelo”, conclui Suzanna.

.

O truque é aceitarmos o que é nosso

20160911_081820
Ilustração: Denise Lobo

A sua experiência capilar tem sido um carrossel. Como a mãe não sabia manejar o seu cabelo, Malikah Rodrigues desfrisou os fios aos 13 anos. Daí fazer a manutenção do look com os produtos químicos, que incluía idas ao cabeleireiro todos os fins-de-semana para estar horas debaixo do secador, tornou-se uma angústia.

“No liceu, comecei a cansar-me de andar com o cabelo sempre da mesma forma”.

A fase de conhecimento e aceitação do cabelo de Malikah veio acompanhado de algo muito particular no seu estilo. O turbante.

“Nessa fase aprendi o significado do turbante, que para mim é uma expressão da minha identidade e ao mesmo tempo, um refúgio para não ter que desfrisar e estar sempre igual”.

Mais tarde, Malikah mudou-se para Portugal, e como não tinha quem a ajudasse a cuidar do cabelo, aos poucos, foi aprendendo a fazer penteados novos e a lidar com ele.

Fiz um pouco de tudo, mas ainda não o sabia aceitar! Cortei, pintei o cabelo, andava com turbantes, pus extensões, enfim, fiz de tudo mesmo! Até que chegou a febre de ‘go natural’. Acabei por entrar nessa onda e fui cortando o desfrizante aos poucos até me habituar ao meu cabelo natural”.

Já lá vão quatro anos, e, este fim de semana, Malikah decidiu cortar o cabelo curtinho. Uma sensação, segundo ela, de tremenda liberdade e despreocupação. Aliás, disse alguém, que a liberdade, ainda que tarde, sempre promete surpresas boas.

“O truque é aceitarmos o que é nosso e não compará-lo ao cabelo das outras. Todos os dias vou aprendendo a amar e a cuidar da minha coroa cada vez mais!”

O meu cabelo que é carregado de história

20160911_081943
Ilustração: Denise Lobo

Tudo começou no ano de 2000 quando a Naya Sena, com 11 anos, mudou-se para Portugal. “Eu lembro-me que as aulas já tinham começado. Fiz tudo às pressas: comprei livros, cadernos, mochila, roupa de frio…era tudo tão novo!”, lembra.

Naya tinha que estar “bem preparada”. E no meio de tantas compras, arrumações e a adaptação no novo país, um pormenor (importante): o cabelo!

“Eu não podia apresentar o meu cabelo “bedju”,”padja di asu”, frisado na escola! Jamais… O cabelo tinha que estar bonito e apresentável. Se eu fosse com o meu cabelo ao natural seria um convite à discriminação e gargalhadas dos meus colegas.”

E assim foi: muitas horas de puxa, estica, química para cima e para baixo nos fios, couro cabeludo queimado, dor de cabeça, olhos a arder, secador, calor e frida. O preço da beleza, naquela altura. No final, Naya conta que foi coroada com uma ida ao fotógrafo.

“A fotografia bonita era para enviar ao meu pai. Não tem como esquecer… ela está estampada na entrada da nossa casa! Uma lembrança, constante, do meu grande feito cosmético”.

Até então, Naya sentia-se feia por causa do cabelo “bedju”. Segundo ela, um cabelo resistente a qualquer investida do vento e firme porque não dança.

Com 18 anos, Naya decide cortar o cabelo.

“Cortei para que a minha auto-estima fosse construída. O meu cabelo levantou-se da raiz cheio de força! Imponente. O meu cabelo que é carregado de história, bedju, sim, rijo, também. O meu cabelo que o pente dificilmente consegue passar. A minha beleza.”

 

 

 

Meu cabelo e Eu, Histórias que eu não contei

image-0-02-01-dbc9c3abf48a4ebfa9f5621575e9f1f4529f7a6afd3a8b7edc4f036a8cf4bf49-v“Querido cabelo,

Tudo bem?

Olha, sobre o tal corte que eu queria fazer-te, na dúvida, vamos ao cabeleireiro para saber se o resultado será harmonioso. Resolvi escrever-te porque amanhã teremos com quem conversar aqui no blog! 🙂 Pois é, eu e essa minha mania de ouvir/ler histórias. Não me canso!

A série “Meu cabelo e Eu, histórias que eu não contei” será um espaço de partilha, um lembrete que o cabelo é uma forma de expressão do indivíduo, ao mesmo tempo, que acumula muita sensibilidade.

Sem esquecer, que não podemos nos limitar. Não existe um jeito certo de se ter ou usar o nosso próprio cabelo.

Sabias que exerces um papel na sociedade? O cabelo afro, por exemplo, conta uma história totalmente diferente do cabelo liso. Já agora, será que numa cabeça pode coexistir dois mundos? o encaracolado e o liso? ou três? o encaracolado, afro e o liso?

Sei lá, sempre alimentei a ideia que o cabelo pode TUDO. Para mim, falar de cabelo é falar de auto-aceitação, sem dúvida. Mas, também, de respeitar as escolhas do outro. Liso, encaracolado, dreadlocks, ondulado, curto ou comprido cada um escolhe o que for melhor para si. Depois, com sorte, alguém conta-nos alguma história (bonita) por aí…

Com amor,

Denise L.”

A ausência de certas perguntas

picmonkey-collageA resposta mais completa é aquela que não está na pergunta. Ela está nos exemplos que não conseguimos exprimir. Nas coisas que não são palpáveis e nem chegam a ser ditas. Pessoalmente, tenho várias respostas para perguntas que nunca me fizeram.

Perdão, caro leitor, estou (um pouco mais) subjectiva, porque essa é a questão. A subjectividade de cada um de nós.

Uma semana atrás, andei por quase as todas lojas da cidade da Praia à procura de um biquíni que fosse adequado (atenção: não quis dizer “comportado”) para o lugar onde eu ia. Encontrei a tal peça, indispensável para o verão, e por alguns momentos pensei na “polémica do burkini”.

Como funciona o  “cobrir” e ” descobrir” o corpo? Quem usa burkini foi obrigada? Quem usa biquíni foi obrigada? O que é considerado extremo e normal? Onde ficou a subjectividade de escolha? Ela, ao menos, existe? Ou, é um mito?

Na Pretória, capital executiva na África do Sul, uma escola orientou as suas alunas, em respeito ao código de conduta da instituição, a usarem os cabelos penteados e “bem presos”. Uma exigência que não deixa de ser, também, subjectiva…

Os burkinis, biquínis e afros continuam a gerar polémicas. A carga do pensamento atrasado e sexualizado pesa. E a ausência de certas perguntas GRITA e não ouvimos!