O Mercado Municipal é casa de família

O Mercado Municipal é casa de família

 

O nome dela é Santa Branca porque no Mercado Municipal, no Plateau, existem várias “Santas”.

“Do outro lado tem a Santa Preta, tem outra que é Santa pequena…Credo aqui tem muitas santas!” afirma.

Cada uma das “santas” guarda vidas bem mais ricas do que aquelas que se faz transparecer.

O nome dela é Santa Branca, mas sempre que eu lembro-me da nossa conversa a minha voz interior lhe chama de Santinha, não sei porquê. Talvez, foi a sua simpatia e boa vontade em querer falar comigo.

“Comecei a vender no mercado com 18 anos, estou com 55… já faz um tempo que estou por aqui. Vendo atacado e a litro. Vendo abóbora, tomate, batata, sapatinha, alho, tudo”.

Santa Branca tem seis filhos e, segundo ela, todos foram criados “debaixo” da sua venda.

O Mercado Municipal do Plateau é morada, desde há muito, daqueles que vão lá vender frutas, legumes, carne, peixe e doces. As gargalhadas, o falar alto, as conversas, as cores,a confusão…é deles. Os moradores. Esse é o espírito do mercado à primeira vista, mas há mais.

Como em qualquer lar, certas vivências são uma incógnita. Fica somente entre os moradores do lar. É familiar.

Quem diria, Mercado Municipal é mercado e casa de família. Lá reside pais, mães, filhos, tios, tias, Santas e Marias. E são esses que incorporam o papel de comerciantes diariamente com conversas paralelas sobre preços e produtos com os fregueses.

Dentro dessa atmosfera surgem amizades que se estendem-se do portão do mercado para fora.

“O mercado é minha casa. Todos os dias, eu chego aqui as 06h00. Quase não paro em casa. Aqui eu tenho mais família. Quando o meu marido morreu todo o pessoal do mercado foi me visitar, os meus vizinhos da minha casa em Calabaceira não foram porque, simplesmente, não nos conhecemos. Aqui no mercado, qualquer coisa acompanhamos um ao outro. Somos uma só família“, conclui Santa Branca.

 

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Beleza nas imperfeições

Beleza nas imperfeições

Aos 12 anos ela nutria a tristeza de ter um cabelo longo que encolhia a metade do seu comprimento. No segundo ano do liceu, Kesia Lima adotou a moda do “relaxante” para “abrir os cachos” e “pentear-se melhor”. Assim, começou a degradação dos fios, até perder os caracóis.

Enquanto os anos se passavam, Kesia olhava para uma fotografia dela, ainda pequena. “Afinal, o meu cabelo natural não é tão mal assim”, pensava.

Um mês antes de fazer os seus 18 anos, Kesia acompanhou a mãe ao cabeleireiro e resolveu cortar o cabelo curtinho! O peso do cabelo liso foi-se embora. “Um descanso sem igual”, afirma.

A fase de transição é marcante, mas Kesia diz que sua foi pacífica. E, atrevo-me a dizer que ela deu-se conta que durante esse período de crescimento fez várias representações dela mesma. Mimar o cabelo natural passou a ser um ritual. A tesoura? Não chegou nem perto.

Por trás dos fios de cada mulher reside um universo de significados que comunicam ao mundo de quem ela é. Depois de seis anos, Kesia aprecia o que antes lhe incomodava.

“Consigo ver a beleza nas imperfeições, quanto mais bagunçado melhor.”

 

 

 

Meu cabelo é a minha identificação

Meu cabelo é a minha identificação

Suzana Hopffer Andrade começou a usar produtos químicos no cabelo para “domá-lo” e conseguir caracóis definidos, com o cuidado de não esticar ou alisar muito os fios. A mãe, por outro lado, apreciava o efeito liso e preto brilhante do cabelo da filha quando usava o defrisante. “Um dia algo correu mal. Meu cabelo ficou liso e começou a cair… Cortei o cabelo curtíssimo. Foi super estranho “.

Em 2011, Suzanna deixou o cabelo crescer naturalmente, através de cuidados específicos para o cabelo crespo.

“Comecei a pesquisar blogs, videos no youtube e páginas no facebook. Devorei todas as informações e os produtos nas lojas, também. Estava maravilhada com a quantidade de opções sobre como deixar o meu cabelo natural mais bonito. Penteados que eu nunca pensei com o cabelo afro para qualquer ocasião: casamento, festas, trabalho…sem a afronta de ter que alisar o cabelo. Comecei a amar o meu cabelo, amar de verdade”.

Contudo, Suzanna diz que nem tudo são rosas porque muitas pessoas que assumem o seu cabelo natural são penalizadas de alguma forma. Ela argumenta que quando falamos do cabelo crespo a textura dos fios é que conta. Ou seja, o cabelo crespo com o efeito encaracolado está sujeito a mais elogios que o cabelo que não tem um formato algum.

“Eu trabalho numa farmácia e os utentes e turistas elogiam o meu cabelo, constantemente, antes mesmo de pedirem algum remédio ou aconselhamento. As vezes, perguntam-me na rua o que eu uso no cabelo, se é peruca ou não, para não alisar, que é lindo, e por aí vai…Na rua, as mulheres questionam-me qual é o tratamento que eu utilizo para encaracolar o cabelo. Até em viagens isso aconteceu-me. Fui a Turquia e em qualquer lugar que eu passava pediam para tirar uma fotografia comigo ou colocar as mãos no meu cabelo, com aquela cara de espanto”.

Suzanna acrescenta que junto com os elogios ela também já ouviu que o seu cabelo é bonito porque não tem o aspecto “palha”, seco, duro, como alguns cabelos crespos. A jovem afirma que quer ser elogiada porque o seu cabelo é bonito, apenas, e não em comparação com os outros.  

Muitas vezes, Suzanna ouviu também que o seu cabelo não deve ultrapassar o comprimento actual. Consequentemente, isso despertou nela a obrigação de defender-se e responder sempre que alguém faz algum comentário negativo, pois tem a consciência que a estética negra sempre esteve, e está, sob algum ‘ataque’.

“Para mim é quase uma questão de direitos básicos enquanto um ser humano, e uma porta para luta contra os preconceitos. Eu sinto que há quem olhe primeiro para o meu cabelo antes de mais nada quando estou no local de trabalho, como se isso determinasse a minhas capacidades ou habilidades. Meu cabelo é a minha identificação, mas sobretudo um meio de quebrar barreiras, preconceitos e opiniões. É a minha mini revolução. Faço isso para abrir o caminho para os outros, sem que eles sofram ou percam oportunidades por causa da forma como eles usam o cabelo”, conclui Suzanna.

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O truque é aceitarmos o que é nosso

O truque é aceitarmos o que é nosso

A sua experiência capilar tem sido um carrossel. Como a mãe não sabia manejar o seu cabelo, Malikah Rodrigues desfrisou os fios aos 13 anos. Daí fazer a manutenção do look com os produtos químicos, que incluía idas ao cabeleireiro todos os fins-de-semana para estar horas debaixo do secador, tornou-se uma angústia.

“No liceu, comecei a cansar-me de andar com o cabelo sempre da mesma forma”.

A fase de conhecimento e aceitação do cabelo de Malikah veio acompanhado de algo muito particular no seu estilo. O turbante.

“Nessa fase aprendi o significado do turbante, que para mim é uma expressão da minha identidade e ao mesmo tempo, um refúgio para não ter que desfrisar e estar sempre igual”.

Mais tarde, Malikah mudou-se para Portugal, e como não tinha quem a ajudasse a cuidar do cabelo, aos poucos, foi aprendendo a fazer penteados novos e a lidar com ele.

Fiz um pouco de tudo, mas ainda não o sabia aceitar! Cortei, pintei o cabelo, andava com turbantes, pus extensões, enfim, fiz de tudo mesmo! Até que chegou a febre de ‘go natural’. Acabei por entrar nessa onda e fui cortando o desfrizante aos poucos até me habituar ao meu cabelo natural”.

Já lá vão quatro anos, e, este fim de semana, Malikah decidiu cortar o cabelo curtinho. Uma sensação, segundo ela, de tremenda liberdade e despreocupação. Aliás, disse alguém, que a liberdade, ainda que tarde, sempre promete surpresas boas.

“O truque é aceitarmos o que é nosso e não compará-lo ao cabelo das outras. Todos os dias vou aprendendo a amar e a cuidar da minha coroa cada vez mais!”