O Mercado Municipal é casa de família

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O nome dela é Santa Branca porque no Mercado Municipal, no Plateau, existem várias “Santas”.

“Do outro lado tem a Santa Preta, tem outra que é Santa pequena…Credo aqui tem muitas santas!” afirma.

Cada uma das “santas” guarda vidas bem mais ricas do que aquelas que se faz transparecer.

O nome dela é Santa Branca, mas sempre que eu lembro-me da nossa conversa a minha voz interior lhe chama de Santinha, não sei porquê. Talvez, foi a sua simpatia e boa vontade em querer falar comigo.

“Comecei a vender no mercado com 18 anos, estou com 55… já faz um tempo que estou por aqui. Vendo atacado e a litro. Vendo abóbora, tomate, batata, sapatinha, alho, tudo”.

Santa Branca tem seis filhos e, segundo ela, todos foram criados “debaixo” da sua venda.

O Mercado Municipal do Plateau é morada, desde há muito, daqueles que vão lá vender frutas, legumes, carne, peixe e doces. As gargalhadas, o falar alto, as conversas, as cores,a confusão…é deles. Os moradores. Esse é o espírito do mercado à primeira vista, mas há mais.

Como em qualquer lar, certas vivências são uma incógnita. Fica somente entre os moradores do lar. É familiar.

Quem diria, Mercado Municipal é mercado e casa de família. Lá reside pais, mães, filhos, tios, tias, Santas e Marias. E são esses que incorporam o papel de comerciantes diariamente com conversas paralelas sobre preços e produtos com os fregueses.

Dentro dessa atmosfera surgem amizades que se estendem-se do portão do mercado para fora.

“O mercado é minha casa. Todos os dias, eu chego aqui as 06h00. Quase não paro em casa. Aqui eu tenho mais família. Quando o meu marido morreu todo o pessoal do mercado foi me visitar, os meus vizinhos da minha casa em Calabaceira não foram porque, simplesmente, não nos conhecemos. Aqui no mercado, qualquer coisa acompanhamos um ao outro. Somos uma só família“, conclui Santa Branca.

 

Mobilidade além fronteiras

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Em África existe uma falta de mobilidade porque temos territórios. Nós não temos mais espaços. O espaço se tornou um território onde foram desenhados somente os limites para as fronteiras. E isso é algo que não podemos controlar porque foi decidido pelos estrangeiros por razões distintas“, afirma Sélim Harbi.

A divisão artificial dos territórios pode sim ser um crime nas nossas vivências. Deixamos de conectar de forma livre com os nossos irmãos pela falta de mobilidade e as consequências são dramáticas.

Sélim, fotógrafo freelancer de documentário e autor multimédia, é ousado:

“Porque que não podemos nos movimentar para diferentes lugares? O principal desafio é reescrever este tipo de narrativa que vai de encontro com a ideia que a divisão linguística não significa divisão de fronteiras. Precisamos criar uma nova consciência em África”.

Sélim acredita que Arte pode ser um fator determinante para esse tipo de conscientização. E acrescenta que o trabalho artístico deve ser algo político, exemplificando com a sua sessão  fotográfica realizada em Burkina Faso sobre máscaras africanas, “Woongo, behind the masks”.

“Eu percebi que as máscaras africanas vão muito além do lado estético. Elas são simbólicas, representam um grupo de pessoas, tem as suas próprias funções sociais e são a expressão de uma comunidade”.

Sélim aponta que se ele fizesse uma trajetória de Burkina Faso até Mali era possível encontrar máscaras iguais em diferentes comunidades.

“Uma prova que as fronteiras não existem. As divisões são superficiais”.

Mercado Municipal de Mindelo, Ilha de São Vicente

Foram dias de muita “sabura”. Pouco tempo para aproveitar tudo o que pequeno “brasilin” tem para oferecer. Mas, o suficiente para fazer recordações.

Um dos lugares que eu mais gostei, em São Vicente, foi o Mercado Municipal de Mindelo.

Genuinamente, não reparei na estrutura do lugar. Ou, se o chão estava limpo e as paredes bem pintadas. Eu vi pessoas. Senti cheiros. Ouvi gargalhadas e gritos.

Emoções, não faltaram!

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Os Habitantes de Dadaab

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“City of Thorns”, de autoria de Ben Rawlence, conta a história de nove vidas no maior campo de refugiados do mundo em Dadaab, no Quénia. Lar de meio milhão de habitantes. A cidade de espinhos levanta uma geração inteira, desde a sua fundação em 1992, quando os refugiados fugiram da guerra civil na Somália.

Ben Rawlence

Eu, ainda, não li o livro. Conheci o Ben Rawlence, pesquisador da Human Rights Watch, através de um vídeo no youtube em que ele falava da sua notável obra (clica aqui para ver). Imediatamente, interessei-me. Entrei em contacto e ele aceitou dar uma breve entrevista para o blog!

 

 

Porquê “City of Thorns” (Cidade de Espinhos)?

Ben Rawlence: Porque o campo é, literalmente, feito de espinhos que os refugiados cortaram no deserto. É, também, uma metáfora, pois aquele campo é como uma prisão. Ela dói!

Em 2010, você esteve no Campo dos Refugiados de Dadaab. Qual foi a primeira impressão ao colocar os pés lá dentro?

BR: Eu fiquei surpreso e pensei: “Alguém precisa escrever um livro sobre este lugar”. Eu fiquei espantado com forma como as pessoas sobreviveram e  como o acampamento tinha estado lá todo esse tempo. Eu queria saber mais. Foi então que deixei o meu emprego e comecei a minha pesquisa.

Qual foi a razão de quereres contar a história dessas pessoas?

BR: Eu queria comunicar sobre tragédia e o drama daquele lugar. Portanto, eu pensei que a melhor maneira de fazer isso era através de histórias individuais. A imagem da mídia é muito generalista, criando estereótipos. Nesse sentido, resolvi focar no indivíduo e no seu dia-a-dia.

Um artigo no jornal New York Times diz que “City of Thorns” é uma fotografia da miséria, violência, medo, desespero e abandono. Concordas?

BR: Sim, mas também é muito mais do que isso. É sobre como as pessoas sobrevivem, se apaixonam, lutam para ganhar a vida e se divertem…

O livro

O livro não tem um final em especial. Simplesmente, acaba. Baseado no que viste e viveste, darias um outro final ao livro?

BR: Não. Esse é o final. Porque não há fim para o sofrimento dessas pessoas, nenhuma solução para a sua situação: elas estão presas. E o objetivo é fazer com que o leitor sinta essa sensação de ser deixado pendurado. De lado.

Em uma das suas entrevistas você alega que esses refugiados querem trabalhar e dar o seu contributo. Porquê que achas que isso não acontece?

BR: Por causa do racismo e da hostilidade do Governo Queniano que não permitirá que os refugiados trabalhem. Este é um sentimento comum em muitos países do mundo, onde não querem que os refugiados e requerentes de asilo trabalhem. Mesmo que, sob a lei internacional, tenham direitos. É uma miopia, em minha opinião. Uma vez autorizados a trabalhar, o governo queniano se beneficiará com isso (em termos de receitas fiscais).

“City of Thorns”, um retrato comovente, realista e cuidadoso.

Um retrato sobre vidas que muitos não conhecem. Não fazem ideia.