Brotou flor

Aquilo que não cantava ontem, hoje já canta.

Morro engasgada, com flores na garganta, mas não deixo uma palavra por dizer.

Se acaso isso for desventura, fica guardado em meu livro.

Aquilo que não cantava ontem, hoje brotou forte e verdadeira.

Morro engasgada, com flores na garganta, mas a doçura do que brotou vai, sim, se espalhar!

Se acaso isso for desventura, fica guardado em meu livro.

Aquilo que não cantava ontem, hoje enfrentou e acariciou tudo o que é árido à sua volta.

Morro engasgada, com flores na garganta e assim será.

Brotou flor.

Uma boa história

20161007_105559Contaram-me uma história com diálogos familiares, ontem. Real. E boas histórias são sobre nós. Pessoas.

“João entra em casa e encontra o pai a ouvir o Empire State of mind do rapper americano Jay Z. Surpreso ele questiona o pai o motivo de ouvir tal musica.

-Pai, esta musica não é para tua idade.

-Filho, a musica está na Internet, qualquer um pode ter acesso.

-Sim, pai…mas, tenta entender não faz sentido ouvires musicas de jovens! Porque não ouves o Roberto Carlos? O cantor do tempo em que ainda namoravas com a mãe.

-Filho, eu posso ouvir o Roberto Carlos, assim como posso ouvir o Jay Z. A minha bagagem está cheia de musicas que ouvi lá trás e aquelas que oiço agora. A minha vantagem? Ser velho.”

Gritamos aos quatro ventos: “SOMOS JOVENS. Jovens!”, como se fosse um atributo. Um plus…

E se, de repente, ter 96 anos fosse uma vantagem para se ser uma modelo de sucesso ou  apresentadora de um programa? Será que a minha avó seria uma candidata? Será que os mais velhos estariam encorajados a continuar a ser o que eles eram antes ou alguma outra coisa? Algo que, aos olhos dos outros, não seria muito apropriado para idade deles?

Sim, porque a sensação que eu tenho é que avançar com a idade é sinonimo de diminuição. As pessoas mais velhas, na sua maioria, estão programadas a diminuir o ritmo. Eu sei, o corpo cansa e as preocupações são outras. 

Mas, não será um mito que o velho precisa “diminuir o ritmo”, de alguma forma?

Eu sempre digo que quero viver muito, pelo simples facto de acreditar que é possível continuar a ser. Sou jornalista, hoje, mas com a plena possibilidade de ser pintora, bailarina, cantora amanhã, porque não? E o amanhã pode significar, eu, Denise com 96 anos.

“A vida é feita de possibilidades”.

 

Campanha “O que eu quero para toda criança”

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Fotografia: Décio Barros

Enquadrado na campanha da UNICEF “Tiny Stories”, que convida pessoas do mundo inteiro a escreverem uma pequena história a partir do tema “o que eu quero para toda criança”, partilho o meu o texto abaixo:

Era um dia especial: em todo o mundo os professores lançaram o desafio aos seus alunos de responderem o que eles queriam ser quando fossem crescidos.

“Não tenham pressa. Vão para casa e pensem com calma”.

As crianças foram para casa. Pensaram.

No dia seguinte, ocuparam os seus lugares na sala de aula muito entusiasmadas, muito contentes. A resposta estava na ponta da língua, naturalmente.

“Quero ser médico, Professora!”, disse um menino na China.

“Professora, eu no futuro quero ser médica e das boas”, disse uma menina em Cabo Verde.

“Professor, nem foi preciso pensar muito, sabias? Sempre soube que eu queria ser médico!”, disse um menino no Brasil.

Estavam em sintonia.

Foi assim que todas as crianças do mundo responderam. Foi assim em todos os cantos do mundo.

Os professores, muito surpreendidos, muito intrigados, queriam saber o porquê.

“Porque o mundo está doente, doente. E queremos curá-lo o quanto antes”.

O Histórias que eu não contei também quer isso: que todas crianças tenham a oportunidade de “curar” o mundo. 

#tinystories #unicef #foreverychild

Os livros do meu pai

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Eu gostaria muito que o título deste post fosse “Os livros que o meu pai deixou-me”, mas não deu tempo para ele oferecer-me “oficialmente” todos os seus livros antes de morrer. Na época, estávamos mais preocupados em termos tempo para brincar ou comer  doces. Embora, ele sempre incentivou a boa leitura, como “Os mais belos contos de Andersen”, para mim e o meu irmão.

Hoje, olho para minha estante e metade dos livros que eu tenho foram dele. Quando a minha mãe procura um livro e não encontra na sala, claro, “está no quarto da Denise”.

Este post não é sobre o meu pai, a pessoa com quem eu mais queria falar sobre livros no mundo, mas só para indicar três clássicos universais que lhe pertenciam.

  • O primeiro é o “O principezinho” de Antoine De Saint-Exupéry. E aproveito para citar uma dedicatória do autor a Léon Werth que aparece nas primeiras páginas deste livro:

“Peço desculpa as crianças por ter dedicado este livro a uma pessoa crescida. Tenho uma grande desculpa: essa pessoa é o melhor amigo que eu tenho no mundo. Tenho uma outra desculpa: essa pessoa crescida tudo pode compreender, até os livros para crianças. tenho uma terceira desculpa: essa pessoa crescida vive em França onde passa fome e frio. Bem precisa de ser consolada. Se todas estas desculpas não bastam, quero dedicar este livro a criança que foi outrora essa pessoa crescida. Todas as pessoas crescidas foram primeiro crianças (…)”

  • O segundo livro e de um autor japonês, sim, você leu bem. Junichiro Tanizaki. O nome do romance é “A confissão Impudica”, relato de uma relação amorosa no mínimo complexa. Eu comecei a ler este livro, mas parei…pretendo retomar esta leitura em breve.
  • O terceiro livro é violento, é quente, é a “Bahia de Todos-os-Santos” de Jorge Amado que conta história de uma velha cidade, a cidade de Jorge.

É isso leitores, desejo que os vossos pais plantem uma semente boa em vocês. O meu plantou a semente da leitura, e por isso eu amo os livros.

O luto das vítimas é luta

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A argentina Lucía Perez, 16 anos, foi vítima de um feminicídio brutal. De acordo com o inquérito feito, a jovem morreu devido a dor excessiva de ser empalada! (*Empalar)

Este caso lembrou-me uma Maria da ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, que por um fio conseguiu escapar com vida, vítima de golpes de catana do marido.

De norte a sul, elas são “amputadas” no corpo e na alma.

Quando eu penso nessas e outras vítimas o meu estômago dá voltas…

O machismo mata, mata de verdade! A violência contra a mulher, principalmente a doméstica, tem uma dificuldade de enfrentamento. Não existe formula mágica, é verdade, mas precisamos educar a sociedade a não aceitar nenhum tipo de violência. Precisamos investir, com todas as forças, na educação sobre o que é o machismo, racismo, homofobia e outros crimes de ódio. Precisamos abraçar projectos que beneficiam as pessoas, no geral. Precisamos educar a comunicação social para que a violência contra a mulher não vire espectáculo. Precisamos debruçar nas leis e nas políticas públicas. Precisamos denunciar o agressor.

O luto das vítimas é luta. Precisa ser a nossa luta.

O Mercado Municipal é casa de família

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O nome dela é Santa Branca porque no Mercado Municipal, no Plateau, existem várias “Santas”.

“Do outro lado tem a Santa Preta, tem outra que é Santa pequena…Credo aqui tem muitas santas!” afirma.

Cada uma das “santas” guarda vidas bem mais ricas do que aquelas que se faz transparecer.

O nome dela é Santa Branca, mas sempre que eu lembro-me da nossa conversa a minha voz interior lhe chama de Santinha, não sei porquê. Talvez, foi a sua simpatia e boa vontade em querer falar comigo.

“Comecei a vender no mercado com 18 anos, estou com 55… já faz um tempo que estou por aqui. Vendo atacado e a litro. Vendo abóbora, tomate, batata, sapatinha, alho, tudo”.

Santa Branca tem seis filhos e, segundo ela, todos foram criados “debaixo” da sua venda.

O Mercado Municipal do Plateau é morada, desde há muito, daqueles que vão lá vender frutas, legumes, carne, peixe e doces. As gargalhadas, o falar alto, as conversas, as cores,a confusão…é deles. Os moradores. Esse é o espírito do mercado à primeira vista, mas há mais.

Como em qualquer lar, certas vivências são uma incógnita. Fica somente entre os moradores do lar. É familiar.

Quem diria, Mercado Municipal é mercado e casa de família. Lá reside pais, mães, filhos, tios, tias, Santas e Marias. E são esses que incorporam o papel de comerciantes diariamente com conversas paralelas sobre preços e produtos com os fregueses.

Dentro dessa atmosfera surgem amizades que se estendem-se do portão do mercado para fora.

“O mercado é minha casa. Todos os dias, eu chego aqui as 06h00. Quase não paro em casa. Aqui eu tenho mais família. Quando o meu marido morreu todo o pessoal do mercado foi me visitar, os meus vizinhos da minha casa em Calabaceira não foram porque, simplesmente, não nos conhecemos. Aqui no mercado, qualquer coisa acompanhamos um ao outro. Somos uma só família“, conclui Santa Branca.

 

Mobilidade urbana, cidade mais humana

Por falta de tempo, eu ainda não fiz a minha carta de condução. E, sim, é elevada a minha consideração para com aqueles que andam a pé, atravessam a estrada ou pedalam a sua bicicleta.

Vivemos numa cidade construída para carros. E uma cidade construída para carros segue a lógica da exclusão. Nem todos conseguem comprar um carro, quanto a mais mantê-lo. Uma cidade construída para carros perpetua o individualismo: autocarros, pessoas que utilizam os transportes públicos, piões e ciclistas são obstáculos ao movimento tranquilo de quem está no seu automóvel.

A cidade onde eu vivo é planeada, sobretudo, para o indivíduo que trabalha. Aquele que faz um deslocamento considerável entre a sua casa e o trabalho. Por muito tempo, o homem, o chefe de família, era quem fazia essa trajectória, enquanto mulher ficava em casa a cuidar dos filhos ou saía de casa para para percorrer um caminho curto. As coisas mudaram. A mulher passou trabalhar, a dirigir o seu próprio carro e a realizar várias jornadas na estrada e na vida.

Porém, como mulher sinto que é preciso desatar o nó da mobilidade na minha cidade. Com este calor, à noite, penso muitas vezes em fazer uma caminhada por aí e respirar o ar (não tão) puro. Depois, lembro-me o quão assustador é andar sozinha, porque ser mulher tornou-se, em diversas situações, conseguir escapar com vida.

Há uma perda de presença humana nas ruas à noite.

Ora, eu não tenho carta de condução, mas faço parte da mobilidade urbana da minha cidade! Aliás, fazemos todos, com ou sem carro. E por isso, quero que a minha prioridade seja respeitada e reivindico que é preciso olhar a segurança com mais responsabilidade.

Uma cidade mais humana, é o que todos nós queremos.

 

A flor de trapo

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Uma flor de trapo feita com retalhos de histórias esquecidas, inacabadas,jogadas a própria sorte sem que ninguém pudesse ter a chance de os ler. Galiléia coseu a flor de trapo para o filho Quimquim de uma vez só. Na noite em que o marido foi morto. Uma linha fina, prendida na agulha, atravessava a miséria do retalho que dava forma a uma flor sem caule.

Na manhã seguinte, Galiléia ofereceu a flor ao filho.

“Regue-a”, pediu.

Quimquim colocou a flor num vaso de vidro onde era possível ver lá dentro, junto com terra, uma vida que ele sonhou ver sem nunca ter chegado a viver, um pássaro mensageiro da paz e a boa nova a ser clamada por crianças pobres, mas felizes.

Quimquim regou a flor por sete noites assombrado pelo terror de ela secar. O menino meigo não sabia o que ele estava fazendo e, por isso, ele regaria a flor mais ainda.

 “Flores de trapo não precisam ser regadas. Elas não secam”.

Quimquim não sabia o que era possível ou impossível, verdade ou mentira. E segundo a mãe ele não deveria saber. Galiléia sabia que o filho iria além porque ele não conhecia as regras, ainda.

A possibilidade “das coisas” daquela flor de trapo era possível sempre que ela fosse regada.

Desaprendendo o amor

A vida amorosa não é um filme, infelizmente. Quer dizer, o amor eterno que o casal morre de mãos dadas como no clássico “Diário de uma paixão”, ou aquele que o rapaz chega ofegante para alcançar a amada, que está de malas prontas na linha de embarque no aeroporto, existe, mas são momentos. E momentos são instantes. Tem hora de acabar.

Pensando bem, os filmes românticos são óptimos porque lembram-nos que essas situações existem…e clichê, sim, mas todos nós perseguimos o amor. Apesar, da invisibilidade desse sentimento, estamos sempre a farejá-lo.

Enquanto isso, vááários discursos são construídos. O que é amar, gostar, apaixonar, desejar, “10 passos sobre como superar o fim do relacionamento”,já agora, a última que eu li: “anel hi-tech permite sentir a batida do coração do seu amor”, e por aí vai. No plano teórico é fácil acreditar nessas narrativas, enquanto que na prática é difícil de seguir, às vezes.

Em conversa com algumas mulheres foram partilhados pensamentos sobre o que seria o amor e um relacionamento saudável. Confira!

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Declarações que direcionam para o seguinte: relacionamento saúdavel é o que se constroi, é o todo dia, a conversa, o respeito pela opinião e individualidade do outro, alinhar os objetivos e as expectativas.

Somos humanos e nos relacionamos em diferentes cenas, e nos divertimos e aprendemos com elas. Quem somos nós para privar os outros de fazerem ou serem o que eles têm vontade, principalmente se os amamos?

 

Beleza nas imperfeições

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Ilustração: Denise Lobo

Aos 12 anos ela nutria a tristeza de ter um cabelo longo que encolhia a metade do seu comprimento. No segundo ano do liceu, Kesia Lima adotou a moda do “relaxante” para “abrir os cachos” e “pentear-se melhor”. Assim, começou a degradação dos fios, até perder os caracóis.

Enquanto os anos se passavam, Kesia olhava para uma fotografia dela, ainda pequena. “Afinal, o meu cabelo natural não é tão mal assim”, pensava.

Um mês antes de fazer os seus 18 anos, Kesia acompanhou a mãe ao cabeleireiro e resolveu cortar o cabelo curtinho! O peso do cabelo liso foi-se embora. “Um descanso sem igual”, afirma.

A fase de transição é marcante, mas Kesia diz que sua foi pacífica. E, atrevo-me a dizer que ela deu-se conta que durante esse período de crescimento fez várias representações dela mesma. Mimar o cabelo natural passou a ser um ritual. A tesoura? Não chegou nem perto.

Por trás dos fios de cada mulher reside um universo de significados que comunicam ao mundo de quem ela é. Depois de seis anos, Kesia aprecia o que antes lhe incomodava.

“Consigo ver a beleza nas imperfeições, quanto mais bagunçado melhor.”