O amarelo salva

Gosto de dar cor às gravuras, por isso sempre que posso compro livros de colorir. Não domino nenhuma técnica de pintura ou desenho, mas consigo criar algumas coisas numa tela em branco. No outro dia, comprei, por impulso, uma tela tamanho 40×40, guaches, lápis de carvão estilo profissional e fui a correr para casa.

“Vou fazer uma desenho lindo e pendurar na parede!”, pensei.

A minha obra teve três fases.

Bom, no primeiro momento, com um pincel, nada profissional, de cerdas muito grossas e desfiadas, eu tentei colorir com diferentes cores cada planta, flor, arvore e objecto desenhado. Nos mínimos detalhes. Não deu certo. Consegui borrar tudo na perfeição.

No segundo momento, muito irritada, mergulhei um pincel grande, de cerdas ainda mais grossas,na tinta laranja e vermelho, e passei por cima da tela. Várias cores envolveram-se, mas a cor laranja foi quem ressaltou mais.

“Denise, passaste a tarde toda a fazer um desenho para depois passares guache laranja por cima, sem mais nem menos?”

“Sim…”, respondi desanimada.

Deixei a tinta secar. Nada satisfeita, fiquei parada a olhar para o meu quase quadro. Algo saltou-me aos olhos: o desenho, apesar de ter sido preenchido por várias cores e com uma pincelada master no fim, estava nítido por baixo.

Peguei um feltro preto e ressaltei ainda mais a gravura. Com vontade. Alguma coisa tinha que dar certo daquele momento puramente artístico! Comecei a ficar mais animada. Até tirei uma fotografia e coloquei no instagram para todos verem.

Porém, continuava insatisfeita. Faltava qualquer coisa…a minha pintura continuava “quebrada”.

Nos momentos assim, sempre alguma coisa acontece. Ernest Hemingway veio falar comigo, acreditas? Pois é, fiquei parva. Feliz. Não estava mesmo à espera!

“Estamos todos quebrados, é assim que a luz entra”, disse o Ernest.

Olhei para ele incrédula, e ele devolveu-me o olhar com gozo. Que descaramento! Fez-me sentir tão estúpida…como é que eu não tinha pensado nisso antes. O tubo de guache cor amarelo a “furar-me” os olhos e eu nada, até aquele momento.

Relaxei, sorri e muito delicadamente mergulhei o pincel mais fino do meu estojo na tinta cor amarelo, contornei e preenchi o meu desenho. Aos poucos, a luz começou entrar no meu desenho “quebrado”.

O Ernest sabe das coisas.

O amarelo salva.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s