Meu cabelo é a minha identificação

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Ilustração: Denise Lobo

Suzana Hopffer Andrade começou a usar produtos químicos no cabelo para “domá-lo” e conseguir caracóis definidos, com o cuidado de não esticar ou alisar muito os fios. A mãe, por outro lado, apreciava o efeito liso e preto brilhante do cabelo da filha quando usava o defrisante. “Um dia algo correu mal. Meu cabelo ficou liso e começou a cair… Cortei o cabelo curtíssimo. Foi super estranho “.

Em 2011, Suzanna deixou o cabelo crescer naturalmente, através de cuidados específicos para o cabelo crespo.

“Comecei a pesquisar blogs, videos no youtube e páginas no facebook. Devorei todas as informações e os produtos nas lojas, também. Estava maravilhada com a quantidade de opções sobre como deixar o meu cabelo natural mais bonito. Penteados que eu nunca pensei com o cabelo afro para qualquer ocasião: casamento, festas, trabalho…sem a afronta de ter que alisar o cabelo. Comecei a amar o meu cabelo, amar de verdade”.

Contudo, Suzanna diz que nem tudo são rosas porque muitas pessoas que assumem o seu cabelo natural são penalizadas de alguma forma. Ela argumenta que quando falamos do cabelo crespo a textura dos fios é que conta. Ou seja, o cabelo crespo com o efeito encaracolado está sujeito a mais elogios que o cabelo que não tem um formato algum.

“Eu trabalho numa farmácia e os utentes e turistas elogiam o meu cabelo, constantemente, antes mesmo de pedirem algum remédio ou aconselhamento. As vezes, perguntam-me na rua o que eu uso no cabelo, se é peruca ou não, para não alisar, que é lindo, e por aí vai…Na rua, as mulheres questionam-me qual é o tratamento que eu utilizo para encaracolar o cabelo. Até em viagens isso aconteceu-me. Fui a Turquia e em qualquer lugar que eu passava pediam para tirar uma fotografia comigo ou colocar as mãos no meu cabelo, com aquela cara de espanto”.

Suzanna acrescenta que junto com os elogios ela também já ouviu que o seu cabelo é bonito porque não tem o aspecto “palha”, seco, duro, como alguns cabelos crespos. A jovem afirma que quer ser elogiada porque o seu cabelo é bonito, apenas, e não em comparação com os outros.  

Muitas vezes, Suzanna ouviu também que o seu cabelo não deve ultrapassar o comprimento actual. Consequentemente, isso despertou nela a obrigação de defender-se e responder sempre que alguém faz algum comentário negativo, pois tem a consciência que a estética negra sempre esteve, e está, sob algum ‘ataque’.

“Para mim é quase uma questão de direitos básicos enquanto um ser humano, e uma porta para luta contra os preconceitos. Eu sinto que há quem olhe primeiro para o meu cabelo antes de mais nada quando estou no local de trabalho, como se isso determinasse a minhas capacidades ou habilidades. Meu cabelo é a minha identificação, mas sobretudo um meio de quebrar barreiras, preconceitos e opiniões. É a minha mini revolução. Faço isso para abrir o caminho para os outros, sem que eles sofram ou percam oportunidades por causa da forma como eles usam o cabelo”, conclui Suzanna.

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