O menino dos olhos caídos e sua falta de qualquer coisa

 

d0b81428854be69064a215d60225be67Pedro chegava à porta do meu quarto com aquele ar ressecado, sentava-se na cadeira abandonada que ali ficava e olhava para o mesmo ponto. Calado.

Em uma das suas visitas eu saltei da cama, com um sorriso de orelha a orelha, e apontei a cabeça à porta do quarto.

“Olá! Estava mesmo à tua espera. A sala do lado está vazia…Podíamos aproveitar e roubar algumas seringas. O que achas?”.

Sem resposta.

“Eu sei que não conheces este jogo, mas vais gostar. Enchemos as seringas com água da torneira e fazemos uma guerra de seringas com água! Prometo: Ninguém vai descobrir que fomos nós”.

Pedro não esboçou um sorriso sequer.

“Que raiva!”A sua falta de qualquer coisa magoava-me.

No dia seguinte Pedro não apareceu. Fiquei inquieta. Estranhei.

Era uma tarde seca quando a enfermeira Judite entrou no meu quarto. O menino dos olhos caídos não escapou a epidemia que nos tinha aprisionado a todos no Hospital Santa Misericórdia.

“Pedro deixou tudo que, entre nós, podia nascer. É tarde demais para brincarmos“.

Judite olhou-me nos olhos e disse:

“Cada um dá o que tem. Pedro fez-se presente na porta do teu quarto. Todos os dias da sua vida. A sua falta de qualquer coisa era detalhe. Ilusão”.

 

 

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