Romantizamos os problemas

 

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A violência, física ou verbal, deixa marcas. Com o tempo, elas passam a ser heranças que mascaramos através de mitos. Em consequência, romantizamos os problemas.

Por outras palavras, num caso específico: o racismo contra mulher negra. A violência contra os negros, ao longo dos séculos, deixou marcas que se tornaram heranças de um passado escravocrata. Foi criado o mito da democracia racial e o racismo foi romantizado.

Exemplifico.

Uma mulher negra de cabelo crespo e volumoso está de passagem, com a mãe, pelo Japão. No centro de Tóquio, ela recebe e percebe muitos olhares. Alguns, mais ousados, chegam perto e pedem para tocar no cabelo e tirar um foto do seu lado.

“Não fica com essa cara de espanto! Isso acontece porque tens traços exóticos”, justifica a mãe.

Enquanto isso, numa revista brasileira de Moda e Beleza chama atenção o título: “Manda um Black Power a-go-ra!” em uma das páginas de mudança de visual, com antes e depois, com uma jovem negra.

O texto inicia-se da seguinte maneira:

“A relações-públicas Magá Moura, 25 anos, já está cansada de carregar o peso (é pesado mesmo, a gente segurou!) de suas tranças por aí. Depois de ser ‘internada’ por quase um dia inteiro no salão do nosso colunista Pro, saiu de lá com cachos extravolumosos e cheios de movimentos. Afrogata total!”

Vale sublinhar, que a jovem Magá tinha o cabelo naturalmente crespo e utilizava madeixas postiças em formato de tranças. O texto continua:

“Magá é dessas meninas que exalam atitude e força só pela forma como se veste e se comunica. Para manter a sua essência, não poderia sugerir um visual clássico. Liso chapado? Nem pensar: não tem nada a ver com a personalidade dela…”

Ora bem, observei duas questões aqui. A primeira é a aparência. O texto sugere que para Magá manter a sua essência ela precisa ter uma imagem que, apesar de transformada, remeta a representação social da mulher negra. Como se optar pelo cabelo liso, verde ou amarelo a fizesse ser menos do que ela já é.

A segunda observação é que, ironicamente, a Magá ficou com a raiz do cabelo lisa no final da transformação. Porém, com cachos, feitos à babyliss, da metade do cabelo para as pontas.

Outra situação, foi enquanto eu morava no Brasil e assisti na Televisão Nacional o concurso para eleger a “Globeleza”. Concorrentes negras desfilavam e sambavam seminuas, sob o julgamento de júris e o público, para o título em questão.

Uma situação que é vista como uma exaltação da beleza negra, talvez?

Nem tanto, eu acho. Visto que a mulher negra carrega debaixo dos braços uma mala cheia de opressão histórica do racismo. E é essa mesma mulher que, muitas vezes, é vista como um produto a ser vendido. Um objeto sexual.

Enfim, romantizamos as situações onde está o problema.

Romantizar os problemas, um problema.

 

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2 thoughts on “Romantizamos os problemas

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